Recensão crítica: O Livro de Jogos de Afonso X, O Sábio, por Neusa Cunha

Jorge Nuno Silva é doutorado em Matemática e Professor na Universidade de Lisboa, no Departamento de História e Filosofia das Ciências. Para além do seu serviço como docente, tem sido um forte impulsionador dos jogos matemáticos e de tabuleiro em Portugal, através do estudo académico e divulgação na prática, estando relacionado com várias organizações ligadas a jogos de tabuleiro e na realização de exposições, assim como tem publicado academicamente na área da História e Prática de diversos jogos de tabuleiro.

A presente obra decorre de um projeto de investigação da FCT dedicado à História dos Jogos em Portugal e dedica-se exclusivamente ao Livro de Jogos de Afonso X, o Sábio, com uma tradução fidedigna e explicação dos jogos e jogadas possíveis (principalmente no xadrez) sempre que tal se proporciona, antecedida por uma longa introdução sobre o livro original em si e sobre os jogos de tabuleiro históricos.

A introdução é longa e vasta, mas o propósito a que o livro se propõe assim o justifica. O autor começa por justificar a linha orientativa que deu à obra e as opções que foram tomadas na execução do mesmo.

É apresentada uma breve biografia do autor original, o Rei-Sábio Afonso X, de Castela e Leão, avô do nosso Rei D. Dinis, focando a atenção no seu interesse pelo aspeto cultural, em plena Idade Média.

Segue-se uma descrição do manuscrito original, bem conhecido pelas suas iluminuras, comentando as personagens que as (possivelmente) integram, assim como da organização do livro, que segue uma lógica mística.

Apoiando-se na organização do manuscrito original, o autor efetua uma breve alusão histórica aos jogos que o compõem, apoiando-se em diversas outras obras históricas. Começa pelo xadrez, pela sua origem, evolução ao longo dos tempos e culturas, das diferentes regras existentes e da sua popularidade crescente, e por avaliação crítica das regras que compõem as jogadas disponibilizadas no Livro de Afonso X, do ponto de vista da sua jogabilidade.

Seguem-se os jogos de dados, passando pela sua origem e utilização ao longo dos tempos, jogos desde sempre viciantes e, por muitas vezes, tornados proibidos em diferentes culturas, mas interessantes quando abordados de um ponto de vista matemático de probabilidades.

Já no que se refere aos jogos das tábulas, que aparecem no Livro de Afonso X como precursores do gamão, o autor faz algumas referências e ligações a outros jogos de tabuleiro da Antiguidade, como o jogo de Ur, o Senet ou o Duodecima Scripta, entre outros.

De uma forma mais breve são feitas referências e comentários ao livro dos jogos grandes, aos jogos das quatro estações e ao livro do alquerque.

Como o autor da presente obra optou pelo modelo de transcrição direta para o português, os capítulos que seguem à introdução seguem a organização e conteúdo do autor original.

O primeiro livro, do Xadrez, apresenta um prólogo sobre os vários tipos de jogos, em pé ou sentados, que nos permite inferir que o jogo seria uma prática comum na Idade Média, independentemente do local ou por quem era praticado. Refere, ainda, que os jogos estavam associados à sabedoria, como sinal de exercício da inteligência.

O Xadrez é tido como um jogo nobre e mais “honrado”. É descrito o tabuleiro, as peças (trebelhos) e de que forma se dispõem inicialmente em forma de conto histórico-militar. Seguem-se os movimentos que as peças podem tomar, de que forma podem capturar e as vantagens que as peças têm umas sobre as outras. Por fim, são colocados 103 problemas de xadrez, e a forma como estes problemas são resolvidos de uma forma dinâmica. Nesta secção, o autor da presente obra apresenta as soluções de uma forma mais metódica, com os movimentos das peças, cativando a experimentação pelo leitor de uma forma mais objetiva.

O livro dos jogos de Dados inicia-se pela reflexão sobre jogos de estratégia/inteligência e os jogos de sorte e da introdução de dados em jogos de estratégia, como os das tábulas, de forma a criar alguma aleatoriedade nos jogos. Como era comum a viciação de dados, Afonso X faz referência à construção dos dados, desde os materiais à colocação das pintas. São apresentados doze jogos de dados, com a respetiva análise sobre os possíveis lançamentos, probabilidades e vencedores pelo presente autor. São eles: os jogos Maiores e Tanto em um como em dois, o jogo da Triga (e sua variante), o jogo do Azar, o jogo da Marlota, o jogo da Rifa, o jogo do Par com Ás, o Panquist, o jogo do Azar Médio, o jogo do Azar Aumentado e a Guirguiesca.

No livro dos jogos das Tábulas começa por refletir sobre o facto de serem jogos mistos, em que é necessária inteligência/estratégia e sorte. Em seguida regem-se as normas para a construção dos tabuleiros e dos trebelhos (peças). A base/tabuleiro destes jogos tem uma aparência similar à do gamão, daí serem considerados seus precursores. Tal como para o livro dos Dados, são apresentados vários jogos por Afonso X, tendo o autor da presente obra adicionado uma explicação simplificada da forma de jogar. São eles: o jogo das Quinze tábulas, o jogo dos Doze cães ou Doze irmãos, o Doblet, o Fallas, o jogo da Sena, duque e ás, o jogo do Imperador, o jogo do Meio imperador, o jogo do Par de entrada, o Cab e Quinal, o jogo de Todas as tábulas, o Laquet, a Bufa cortesa, a Bufa de Baldrac e o Reencontrant.

O último livro apresenta alguns jogos bastante diferentes entre si e nem por isso menos importantes. O primeiro é o jogo do Grande Xadrez, jogado num tabuleiro maior, com doze casas (em vez das oito tradicionais), e, consequentemente, com mais peças e peças diferentes, como a aanca, a cocatrice, a girafa, o unicórnio e o leão. São mostradas as regras com que estas novas peças se movimentam (também em esquema pelo presente autor) e, como o jogo originalmente era lento, Afonso X criou uma variante com a adição de dados especiais, com sete faces.

Segue-se o jogo das Quatro Estações do Ano, jogado por quatro jogadores, correspondentes a cada uma das estações do ano, num tabuleiro de xadrez tradicional, começando cada jogador em cada quadrante. São referidas as regras, com interpretação do presente autor.

O jogo do Alquerque é apresentado em três variantes, com tabuleiros diferentes: o de doze, conhecido comumente apenas como Alquerque, o de nove, conhecido também atualmente como Jogo do Moinho, e o de três, que atualmente conhecemos como Jogo do Galo. São apresentados os tabuleiros, as peças e as regras para todos estes jogos, sendo que o de nove pode ser jogado com ou sem dados.

Por último, são apresentados os jogos de Astronomia: jogo dos Escaques e jogo das Tábulas, para sete jogadores, cada um com correspondente a um planeta, jogados sobre grandes tabuleiros específicos. São apresentadas as descrições dos tabuleiros e regras para cada um destes jogos.

A obra termina com uma vasta bibliografia que fundamenta introdução da mesma.

O Livro de Jogos de Afonso X é uma obra incontornável na História dos Jogos de Tabuleiro Medievais e a tradução e adaptação efetuada para português está feita de uma forma criteriosa e acessível ao leitor.

A organização geral está bem estruturada, ilustrada e é de fácil leitura e compreensão, pois apesar de se tratar de uma tradução e de seguir as linhas gerais da obra original, a longa e exaustiva introdução cativa o leitor para a compreensão do manuscrito que se segue, assim como introduz de forma exemplar a História dos jogos de tabuleiro associados aos descritos por Afonso X. Exemplar é também a simplificação das regras e jogadas apresentadas por Afonso X, tornando mais percetível ao leitor e cativante para a experienciação dos jogos. 

A longa bibliografia, bem explanada na introdução, permite ainda que o leitor possa aprofundar o conhecimento sobre a História dos Jogos de Tabuleiro.

Do nosso ponto de vista, a obra ganharia com uma adição, no final, de um fac-símile do manuscrito original, mas aceita-se a sua ausência, uma vez que o autor justifica que não pretendeu explorar a obra de uma forma artística ou simbólica.

É, sem dúvida, um livro essencial, atual e incontornável na História dos Jogos de Tabuleiro.


Silva, Jorge Nuno – O Livro de Jogos de Afonso X, O Sábio. Lisboa: Apenas Livros, 2013. ISBN 978-989-618-421-6

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