Recensão crítica: A Brief History Of Life In The Middle Ages, por Tiago Torres

Martyn Whittock foi professor de história na Universidade de Bristol por 27 anos. Além do seu serviço como docente também redigiu várias obras, manuais académicos e artigos, nos quais predomina o particular interesse sobre o período da alta Idade Média. Nesta obra, Martyn Whittock propõe-se a explorar, de forma breve, a vida no quotidiano da época medieval. O propósito é conseguido, no sentido em que a brevidade da menção dos tópicos é tal que, por vezes, o mesmo é apenas referido e referenciado sem existir mais de algumas palavras ou linhas sobre o assunto. 

No que supondo, pelo exercício da leitura, ser a forma de eliminar ou reduzir drasticamente as ambiguidades de onde e quando considerar que começa a época medieval e os seus respetivos períodos, Martyn Whittock foca-se, essencialmente, na zona geográfica de Inglaterra – que indica ter entrado na Idade Média por volta do ano 900 com a reconquista de Danelaw. Com a indicação do local em foco, temos também a delimitação do corpo da obra que não deve ultrapassar o ano de 1553. 

Desde a introdução o leitor fica sensibilizado que deve ter em consideração que a Idade Média não é um período estático, mas sim um período marcado por um fluxo dinâmico de mudanças e desenvolvimento. O ritmo a que este fluxo de mudanças e desenvolvimento acontecia era diferente de área para área, muitos fatores poderiam influenciar uma mudança como também muitos fatores implicavam resistência a que certas mudanças acontecessem. 

A Inglaterra do século XI era um país rico, que herdou a habilidade de subir impostos das guerras viquingues. Os impostos extraíam-se dos recursos produzidos por uma sociedade bem organizada que se embutia já de muitas características que fundam o rural medieval, como por exemplo as igrejas de pedra, um verdadeiro retentor que abranda as migrações de população, criando aldeias nucleares. Ajuda nesta tendência a possibilidade de os proprietários das terras terem a possibilidade de remover as suas terras dos impostos à coroa estabelecendo uma igreja monástica, administrada por um familiar. Esta solução, uma clara brecha nos impostos, levou a que vários mosteiros fossem dissolvidos. Acrescenta-se ainda o impacto das invasões viquingues que contribuíram para a destruição de edifícios monásticos. Os ataques a mosteiros tinham como objetivo saquear, o seu alvo era riqueza, não destruir a cristandade, na verdade, os viquingues agiam como cameleões culturais que rapidamente adotaram o modo de vida e cultura da comunidade que conquistaram. A Igreja Cristã tinha, na verdade, um enorme impacto na sociedade – cerca de 1/6 das terras eram propriedade da Igreja – o seu papel era tão profundo que as igrejas ocupavam o centro das aldeias. Por volta de 850 a prática de ter um cemitério junto das igrejas tornou-se norma para a maior parte da população, embora esta prática já tenha sido praticada pela realeza desde da década de 680. Demorou 50 anos (900) até que a prática de manter os cemitérios longe das igrejas se desvanecesse, altura em que o enterro em cemitério era a prática comum. A inserção, cada vez mais comum, das igrejas como traço central da paisagem promoveu o aparecimento de leis que reconheciam hierarquias entre o seu tamanho desde catedrais a igrejas locais sem cemitério. 

A agricultura era a ocupação predominante da população, um padrão que se repetia desde a Idade do Bronze. Este fator, associado ao abrandamento das migrações provocado pela construção de igrejas de pedra converteu, gradualmente, as aldeias em cidades que tornavam o local cada vez mais urbano. A sofisticação do governo das cidades, distanciando-se do governo monástico, tornou as cidades em locais de grande utilidade para comércio. 

A falta de conhecimento da teoria dos germes, falta de conhecimento de precauções preventivas ou falta de conhecimento científico no tratamento de ferimentos/ doenças aliadas à ausência de antissépticos e anestésicos coloca a morte como uma realidade muito comum do dia-a-dia. A tradição médica restringia-se a alguns manuscritos que sobreviveram do período anglo-saxónico, aos quais se estipula conterem remédios rurais usados por comunidades menos instruídas. De certo modo a propagação de doenças é um resultado do progresso que se fazia a nível do desenvolvimento da indústria do artesanato para chegar à sociedade conforme conhecemos. A vida rural, mais pacata não acatava tantos perigos de transmissões de doenças, havia mais distanciamento como uma maior estagnação dos afazeres.

A vida nos feudos encontrava-se sobre a administração do senhor das terras e dos seus respetivos oficiais. As regras estipuladas, caso quebradas, poderiam levar o senhor do feudo a organizar um tribunal local que determinava multas que lhe eram pagas diretamente. As rendas pelo uso das terras eram pagas com trabalho não renumerado ou por uma porção das colheitas e do gado. Também poderiam pagar renda com dinheiro, por vezes os três tipos de pagamentos eram aplicados em simultâneo. Os servos passavam as quintas de geração para geração, numa tentativa de acumular alguma riqueza. A comunidade era composta por uma variedade de artesãos (como pastores, moleiros, ferreiros, silvicultores, apicultores, pescadores, carpinteiros, ladrilhadores, pedreiros, entre outros) cuja arte tendia para lhes facultar um sobrenome. As indústrias ficavam localizadas perto da sua fonte de materiais para facilitar o acesso e transporte. Recursos naturais dos rios ou do mar eram uma parte principal da vida na Idade Média, quer como fonte de materiais para construção, quer como fonte de alimento – acrescentando que o peixe era essencial na dieta medieval pela frequência abastada de dias de jejum do calendário cristão, em que se podia comer peixe, mas não carne. De todas as indústrias localizadas nas cidades a maior era a do tecido. No que toca à distribuição das atividades lavrar a terra, por exemplo, era vista como uma atividade tipicamente masculina, enquanto que plantar, capar e peneirar eram vistas como atividades femininas. Quando realizados trabalhos comparáveis não existia diferença em pagamentos quanto aos géneros, mas tipicamente as mulheres realizavam trabalhos de renumeração inferior.

No que toca à estrutura da cidade a típica imagem de um local com casas, terra arável e perto da floresta não é o único tipo existente. Em alguns locais, pela forma como as casas formam fileiras viradas para a rua é plausível que tenham sido cuidadosamente planeadas. À medida que a paisagem muda, também muda as potenciais disposições da cidade. Ao contrário do que é representado em ilustrações contemporâneas apenas algumas das maiores cidades estavam cercadas de muralhas. A disposição teria de ser adequada, alguns locais, devido à fortes chuvas apresentam casa mais espalhadas e até mais pequenas. A visão de que as casas eram feitas de madeira e de uma estrutura débil já não é aceite no seio da comunidade académica, a madeira utilizada estava estruturada de modo a durar várias gerações, para tal a construção teria necessariamente de ser robusta. 

A peste negra chegou a Melcome Regis, Dorset em 1348. A quantidade de vida ceifadas foi tal que os proprietários de terras tiveram de se contentar com as exigências pedidas pelos camponeses para laborar as terras, deixando de verificar até se as restrições sobre escapar de outras aldeias estariam a ser cumpridas. A prática de enterrar pertences pessoais com o corpo – já praticado pelos elementos do clero com cruzes e cálices – estendeu-se no povo pelo século XII, vários rosários, joias e roupas integravam o corpo. A presença de acessórios de vestuário voltou a ganhar ímpeto por volta de 1350. É pensado que fazer o corpo acompanhar-se de objetos de índole religiosa sirva para dar conforto ao morto. A colocação do corpo em caixões tornou-se mais comum na segunda metade do século XIV, potencialmente por influência da peste negra como forma de conter a peste de corromper o corpo (e a alma). Esta prática parece ter sido mais frequente em mulheres, por causa da sua natureza mais célere de decomposição de acordo com a teoria dos humores. O sistema de abastecimento de água de depósito de resíduos das indústrias funcionava numa proximidade alarmante, o que facilitava a difusão de uma epidemia. Várias doenças apareceram durante a Idade Média, embora mais devastadora tenha sido a peste negra. Podemos também encontrar registos de outras doenças ou sintomas que parecem corresponder a outras doenças: uma doença que faz suar (possivelmente influenza), tuberculose, lepra, sífilis, tifo e disenteria.

As cidades prosperavam no comércio. Os proprietários de terra teriam o direito de realizar feiras e mercados semanais que acompanhavam as feiras anuais. Os comerciantes e os artesãos agrupavam-se em guildas que consistiam em grupos profissionais que estavam sobre a alçada dos mesmos ‘mistérios’ e mestres – que detinham oficinas ou lojas. Além dos mestres as guildas tinham os trabalhadores que eram o grupo treinado e assalariado pelos mestres, estes poderiam eventualmente tornar-se mestres também. Um último grupo seria dos aprendizes que trabalhavam gratuitamente para os mestres, a troco de aprenderem a arte em causa. As guildas desempenharam um papel importante em controlar as suas elites. O período de aprendizagem era longo, o que limitava a entrada de novos membros e mantinha o equilíbrio entre a quantidade de mestres e a quantidade de trabalho existente. 

A peregrinação era outro tópico importante da vida na Idade Média. As peregrinações tinham começo, tipicamente, sobre uma promessa feita perante um padre da freguesia. O potencial peregrino negociaria as áreas que teria de passar para procurar perdão, ou para pedir que as suas preces sejam atendidas. Os locais mais comuns são ainda conhecidos hoje como Roma, ou Santiago de Compostela.

A esperança média de vida era afetada por vários fatores, entre os quais a dieta. A gula, um dos sete pecados mortais, ocupava as condenações dos monges, que comiam comida intencionada a distribuir pelos pobres. Os relatos da abadia de Westminster sugerem que os monges consumiam acima do valor nutricional diário recomendado. Monges do priorado de S. Swithun (séc. XV) consumiam diariamente cerca de 0.68 kg de carne, cinco ovos, sopa de vegetais, pão e cerveja. Em Chester (1437) os camponeses faziam pão com ervilhas e raízes de samambaia devido à escassez de trigo, que colocava o seu preço muito elevado. Em Sedgeford (1424) análises do consumo de comida revelam que o consumo diário seria de 0.45 kg de carne e pelo menos 3.4 litros de cerveja por cada 0.9 kg de pão consumido – neste século o pão de trigo estava a substituir o pão de cevada e o bife substituía o bacon. Os alimentos típicos dos camponeses centravam-se em couves, alho francês e mel como adoçante. Apesar da difundida imagem do camponês esfomeado esse fundamento é encontrado apenas na segunda metade do século XV. Os camponeses mais pobres sobreviviam de caldos engrossados com cevada e/ou outros cereais. Era comum deixar uma panela sobre as brasas durante o dia e adicionar vegetais e outros ingredientes para engrossar antes de comer. Análises de esqueletos de um cemitério de uma cidade medieval deserta em Wharram Percy (séc. XI-XIII) revelam que os bebés eram amamentados até aos 18 meses de idade, o que lhes duplicava as hipóteses de sobrevivência durante o primeiro ano de idade. Curiosamente as estatísticas mostram que o intervalo mínimo entre nascimentos seria de dois anos e meio, o que fará com que a mulheres tivessem no máximo oito filhos durante a sua vida. 

No que toca aos géneros os estudiosos medievais acreditavam que de uma relação sexual a mulher só ficaria gravida se se sentisse estimulada. Esta ideia causou graves problemas às mulheres vítimas de violação, dado que se assumia que o ato teria sido consensual. O rapto e a violação eram práticas que forçavam as mulheres a casar, numa tentativa de regularizar o que teria sido feito sem consentimento. A bênção parental era procurada, mas não essencial. A maior parte dos casamentos teria lugar em igrejas, mas dado que tal não estava estipulado pela lei era suficiente celebrar os votos de casamento em frente de testemunhas. A idade mínima para casar prevista no direito comum (Common Law) era de 12 anos para as raparigas e 14 anos para os rapazes. O divórcio não existia como opção, a não ser que fosse possível comprovar que o casamento não aconteceu. A visão da Igreja Católica sobre o casamento colocava o ato sexual como um mero meio de reprodução, havia também restrições sobre ter relações durante os dias de jejum ou ao domingo. No seio da aristocracia as mulheres eram vistas como um acordo de negócio, os casamentos serviriam para criar alianças territoriais e aumentar a riqueza das famílias envolvidas. No caso de viuvez as mulheres poderiam herdar – caso não existisse filho herdeiro – desde que continuassem solteiras poderiam deter propriedade tal como um homem. Eram as viúvas que predominavam no comércio das cidades.

A palavra escrita, dos quais os mais famosos exemplos nos chegam dos scriptoriuns monásticos, estava associada a um processo moroso – de raspar e esticar o couro a preparar as tintas e executar o próprio processo de escrita. As tintas eram feitas com bugalhos e fuligem. A Cantuária, por exemplo, perdeu cerca de metade dos seus manuscritos para Oxford porque os monges levavam consigo os manuscritos que tratavam como propriedade pessoal. Nos séculos XIII e XIV era comum que um selo de lacre fosse utilizado como assinatura, o sinete era habitualmente feito por duas partes – uma parte central que representava a pessoa e um texto circundante. Num período mais tardio destes séculos, com o crescimento da população alfabetizada o selo de lacre deu lugar à assinatura. 

Nesta obra, mesmo reduzindo o âmbito à zona geográfica da Inglaterra estão centradas nas quase 300 páginas cerca de 500 anos de história. Embora a pretensão inicial da obra seja o quotidiano este faz-se sempre acompanhar da contextualização dos eventos mais importantes em curso, sem os quais teríamos apenas factos dispersos, apresentados por uma ordem duvidosa. Por outro lado, podemos apontar o foco específico em Inglaterra simultaneamente como uma vantagem e um defeito. Se o objetivo for obter conhecimentos específicos do local o livro pode ser um ótimo auxílio, pois aborda a questão das leis e regras, assim como a influência da sociedade anglo-saxónica na construção da Inglaterra medieval. No último capítulo o livro culmina com a forma da sociedade inglesa pelo ano de 1553. Por outro lado, temos a questão do “título enganador” pois o objeto de estudo é, na verdade, bastante específico, abdica de cerca de 500 anos de história, perdendo cerca de metade do período da Idade Média e ignorando quase a totalidade da sociedade medieval ocidental e oriental. É uma boa obra para quem pretende iniciar-se academicamente no tema – o texto não se perde particularmente em detalhes, nem todas as intervenções remetem para uma nota de rodapé. Quanto à bibliografia – e importa aqui salientar que a obra foi publicada em 2009 – é constituída essencialmente por obras com um desvio aproximado de 5 anos desta publicação. Os mapas que estão nas primeiras páginas são um bom auxílio visual, embora o autor não se socorra deles no decurso do texto. O vasto Index permite também uma navegação rápida de consulta das várias palavras-chave.

 
WHITTOCK, Martyn – A Brief History Of Life In The Middle Ages. London: Robinson, 2009. ISBN 978-1-84529-685-8

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