A Classical Education – recensão por Tiago Torres

Caroline Taggart procurou abordar um apanhado de tópicos que identifica serem muitas vezes deixados de parte ou caídos em desuso nos sistemas de ensino. O título da obra – uma educação clássica: o que gostarias que te fosse ensinado na escola – considerado na integra permite compreender o objetivo e alcance da obra. Caroline Taggart dedica apenas um breve capítulo ao tópico da educação clássica, em bom rigor, o que acontece no decurso da obra é uma tentativa da autora em educar o leitor no que foi a antiguidade clássica em vários aspetos e temas.

Numa tentativa de derrubar preconceitos que o leitor possa ter acerca da História, ou do que pensa que sabe do assunto em análise Caroline Taggart explica, com clareza, que quando abordamos o termo ‘clássico’ não estamos exclusivamente a considerar a Grécia Antiga e Roma, mas que outros locais e culturas também apresentam um importante peso na História como por exemplo os Persas, os Cartagineses, os Egípcios, os Sumérios, entre outros. Salientar este ponto é importante para relembrar que os sistemas de ensino evoluem de modo a corresponder a certas necessidades e, eventualmente, alguns assuntos são substituídos de modo gradual. Este processo implica que o que uma geração compreende pela antiguidade clássica possa não ser o mesmo que a geração seguinte – não só a nível do leque de temas como quanto ao detalhe e tempo dedicado a esses conhecimentos. 

O itinerário planeado por Caroline Taggart não é cronológico, ou geográfico, mas sim temático, com um total de 10 temas principais anunciados – 1. Línguas clássicas; 2. Religião e Mitologia; 3. Creta; 4. História da Grécia Antiga; 5. História de Roma; 6. Literatura; 7. Arquitetura e Arte; 8. Matemática, Ciência e Invenções; 9. Filosofia e as Artes Liberais e 10. Jogos. No tema das línguas clássicas a obra contem uma exposição – acompanhada de uma tabela – do alfabeto grego com os respetivos símbolos assim como uma explicação sobre as palavras com origem no grego e no latim e como estas ainda influenciam as línguas contemporâneas. Esta abordagem ajuda a perceber como certas palavras ou grupos de palavras evoluíram e a forma como foram compostas. 

Dado que cada deus grego teria a sua área de domínio é dada a cada um uma breve explicação da sua história e como a mesma foi representada em obras como a Teogonia de Hesíodo, ou nos escritos de Homero. É de notar que além dos próprios deuses há uma preocupação em explicar a sua origem – que no início havia um estado de nada conhecido como Caos do qual nasceu Gaia – de quem descendem os gigantes, titãs e por consequência os deuses.  Também é possível encontrar um breve resumo dos trabalhos de Hércules, a história do rei Midas e até a trágica história de Prometeu. 

Nos capítulos seguintes deparamo-nos com a difícil tarefa de sintetizar os pontos basilares da história da Grécia Antiga e Roma a umas dezenas de páginas. Algumas personalidades incontornáveis merecem serem mencionadas – como o famoso legislador Sólon; Heródoto, o considerado pai da história e Plutarco que além de historiador se destaca pelos seus trabalhos biográficos. Entre outras, estas personalidades ajudaram a fundar o nascimento da democracia. 

Rómulo e Remo, irmãos gémeos filhos de Marte e Reia Sílvia que sobreviveram acolhidos por uma loba após serem lançados ao rio Tibre são os fundadores de Roma em outra história em que a história e o mito convergem. Ao contrário dos atenienses os Romanos conferiam estatuto de cidadão a vários dos povos conquistados. Este estatuto trazia o direito a voto, a celebrar contratos e casamentos, mas também a obrigação de pagar impostos e prestar serviço militar o que alargava e matinha a força militar do império. As mulheres não estavam autorizadas a votar, mas podiam deter propriedades e podiam ainda enriquecer pelos seus próprios meios. Os mais pobres dos cidadãos Romanos podiam ter um ou dois escravos, mas as casas mais ricas teriam muitos mais. Os escravos, por sua vez, eram maioritariamente prisioneiros de guerra, poderiam até ser libertados pelos seus amos como recompensa por lealdade no serviço ou até reunirem dinheiro suficiente para comprar a sua própria liberdade. 

“O Império Romano foi uma obra-prima administrativa, provavelmente a maior que já existiu do seu género.” Uma obra-prima, não pela área que ocupava, da Escócia ao Norte de África, passando por Espanha até ao Iraque, mas porque todo o território era governado pelo mesmo sistema legal que abrangia cerca de 60 milhões de pessoas que conseguiam comunicar na mesma língua – o Latim. Outras línguas eram obviamente utilizadas e até como línguas mãe de certas pessoas, mas foi o Latim que se firmou como língua comum do Império. Um outro exemplo da exímia competência organizacional pode ser encontrado na arquitetura, no Coliseu mais especificamente. O edifício, que podia acomodar cerca de 50.000 pessoas tinha um sistema de corredores tão eficiente que se diz se possível evacuar em 15 minutos. 

Das obras da antiguidade clássica algumas são tão famosas que, de um modo ou de outro, seja por meio académico, seja pelo meio cinematográfico já ouvimos falar – como a Ilíada e a Odisseia de Homero. Além da sua importância como obras literárias estas obras chegam até nós como um forte marco histórico e cultural. Um particular indivíduo milionário alemão – Heinrich Schliemann – conseguiu através de informação recolhida nas obras de Homero organizar uma escavação arqueológica no norte da Turquia que embora não tenha resultado em alguma descoberta propiciou que os contínuos esforços nas escavações mais tarde tenham confirmado que no local tinham existido uma cidade fortificada no local apontado por Homero. 

As tragédias gregas, que tanto encantam e intrigam, também eram consideradas como alvo de inspeção teórica como elaborado por Aristóteles na sua Poética. As considerações de Aristóteles repercutiram-se ao longo dos séculos seguintes tendo exercido uma forte influência no drama produzido na europa. Os Romanos não eram tão aptos a desenvolver tragédias literárias, embora algumas tragédias e comédias sejam reconhecidas. Uma das personalidades mais famosas, do período romano, que se dedicou à escrita foi Cícero que se debruçou particularmente sobre filosofia e oratória.

A herança cultural que chega a nós deste período não se cinge a impacto no desenvolvimento das nossas línguas e a uma incontornável carga literária que influenciou, em particular, o mundo ocidental. A nível artístico temos também de destacar a cerâmica produzida pelos gregos. Os atenienses inventaram uma técnica de “figura vermelha” que consistia em desenhar as figuras num fundo preto. Esta técnica permitia realçar as figuras e atingir um maior grau de detalhe nos desenhos, podiam ser novamente retocados com tinta preta para recompor o desenho. Na Grécia Antiga a cerâmica era usada para todo o tipo de propósitos, desde cozinhar, transportar água ou até guardar cinzas dos mortos. Não é de estranhar que desde muito cedo se tenha começado a decorar cerâmica com formas geométricas ou representações de humanos/animais. Nesta fase era mais comum que o desenho, em vez do fundo, fosse maioritariamente preto acompanhado de vermelho e branco sobre o fundo da cor da cerâmica. 

A nível de conhecimento e desenvolvimento científico nomes como Pitágoras e o seu teorema, Hipócrates e o seu juramento são incontornáveis e pode ser difícil, senão impossível, classificar ou categorizar o grau da sua importância. Acontece que alguns contributos são compreendidos de forma abstrata, temos noção que são passos necessários na cadeia de acontecimentos da história. Um dos contributos que, garantidamente, não é abstrato são as estradas romanas. As estradas eram feitas pelos legionários que iam a todo o lado a pé, por consequência utilizando as estradas que construíram. Facilmente saltamos para a conclusão que certamente os legionários sabiam que iam percorrer aquelas estradas e essa consciência traduzia-se num esforço pessoal acrescido da responsabilidade da tarefa. Mas as estradas não resistiram a séculos porque os legionários queriam uma viagem agradável, os romanos, embora pouco inovadores eram brilhantes a desenvolver e melhorar aquilo que já existia, o conhecimento dos povos conquistados também não era ignorado, mas tido em consideração para proveito do Império. 

Caroline Taggart tem um estilo de escrita muito dinâmico e cativante. O texto não está escrito de uma forma meramente académica, mas comunicativa, a autora provoca o leitor com várias interjeições e comentários de uma ironia cómica, tornado a leitura mais agradável.  O propósito desta forma é difícil de concretizar, até porque embora a autora não especifique, o publico alvo será certamente o/a estudante ou jovem adulto saído do sistema de ensino britânico.  Embora a obra seja pequena é muito rica em conteúdo, toda a informação está condensada em poucas páginas, claramente um resultado da estrutura temática programada para a obra. Apesar da estrutura temática apresentada no índice a obra segue um fio cronológico focando-se em personalidades históricas para expor os eventos históricos que aconteceram durante a sua vida – tenham sido vividos ou provocados por estas. 

Um ponto a melhorar seria a bibliografia, é muito curta e algumas passagens do texto – como referências a escavações arqueológicas – mereciam ter a fonte identificada. O alerta deixado numa fase introdutória da obra – de que vários locais e culturas apresentam um importante peso na História – acaba por servir apenas como alerta, a autora não explora ou refere nenhuma outra cultura ao longo da obra.  


TAGGART, Caroline – A Classical Education: The Stuff You Wish You’d Been Taught at School. Great Britain: Michael O’Mara Books Limited, 2013. ISBN 978-1-78243-010-0

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